quinta-feira, 27 de julho de 2017

Cacauroska

A gente dá uma volta na orla e volta pro hostel - as melhores noites são totalmente inesperadas.

Essa brisa refrescante do mar. Depois de meses passando frio em Brasília, estávamos com aquele ardor de pele recém queimada do sol da Bahia. Lá chove nesta época, disseram. Mas eu sentia os meus ombros quentes com aroma de hortelã dos cremes pós sol. E assim caminhávamos sem pressa por entre os restaurantes da segunda praia. A lua estava incrível. Cheia, iluminava completamente o mar.

Poderia dizer que escolhemos o restaurante pela cantora que entoava La Belle de Jour, mas a verdade é que havia uma mesa com quatro caras interessantes ali do lado.
Luz de velas, pés na areia, a visão meio turva pelo reflexo das chamas nas lentes dos meus óculos. Drink caro esse que o garçom nos indicou. A cantora emendou logo uma Cássia Eller com Legião Urbana que nos fez ficar, celebramos Brasília naquele momento.
Este é o restante do drink que não coube no cacau, disse o homem. Cacauroska. Caipiroska de cacau e morango. Logo depois veio o drink mesmo, um cacau grande, fechado com uma tampa da fruta e suspenso em um copo de uísque para ficar de pé. Em uma fresta da tampa saía um canudo. Um sabor doce e completamente novo nos invadiu. Juntas, suspiramos ao provar a melhor capiriosca que tivemos notícia. Qual foi a última vez que você provou algo totalmente novo?

Busquei chocolate no paladar, seria o óbvio a se fazer. Busquei jaca, caju. Nada parecia. Totalmente novo. Fruta carnuda. Brinquei de sugar e tirar a carne da semente com os dentes. Depois descobri que o canudo fazia bem esta função: arrancava lascas e tiras da fruta e levava direto para a boca com um tanto de vodka junto. Então passamos um tempo interminável assim: entre o silêncio da novidade e um ou outro ataque de riso. O vento do litoral. Já tinha pensado em tanta coisa, lembrado de tanto momento, mas quando me dei conta só tinha bebido dois dedos do drink. Essa cacauroska é infinta. Rimos mais um tanto.


Não sei se terminamos o drink infinito. Talvez tenhamos desistido antes de sugar toda a vodka entre os gelos e a poupa do morango. O morango fazia um desserviço: entupia o canudo. Mas que divertido era desentupir sugando-o ao contrário. Subimos as ladeiras até o hostel rindo muito, rindo de tudo, muito leves. Pensamos em sono, mas tudo estava simplesmente muito poético para que desistíssemos da noite. O duro retorno à realidade seria encarar a alemã mimada que dividia o quarto conosco. Decidimos nunca voltar à realidade naquela noite, então. Ficamos na porta, na mesa de sinuca, na rede, em qualquer lugar onde fosse fácil um convite pra ficar. Voltamos mais tarde à praia com o pessoal, para um luau vazio com música incrivelmente ruim, mas tudo estava muito leve e transformador. A cacauroska nos levou até tarde naquela noite, entre muitas risadas, yoga na areia em plena madrugada, novos passos de axé (!) e gente nova e interessante.


Noite mágica

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Chuva do Caju

A noite estava insuportavelmente quente
Os ipês amarelos e brancos floresceram duas vezes nesta seca
As paineiras? Ah, estas florescem quando querem, agora.
A chuva do caju virou temporal, a cigarra anuncia no outubro quente que as chuvas já chegaram
Nós sabemos, cigarras

Tudo está um pouco estranho, mas me é muito familiar

O Conic não me mete mais medo, o pagode é novo e vibrante, o batuque do candomblé é animado, o hip hop é costumeiro e o samba está sempre lá.



quinta-feira, 29 de outubro de 2015

31 anos


Não só quem nos odeia ou nos inveja
Nos limita e oprime; quem nos ama
Não menos nos limita.
Que os deuses me concedam que, despido

De afetos, tenha a fria liberdade
Dos píncaros sem nada.
Quem quer pouco, tem tudo; quem quer nada
É livre; quem não tem, e não deseja,

            Homem, é igual aos deuses.” (Ricardo Reis)

Voltando de carro do trabalho no dia em que completei 31 anos, eu pensei em tudo de bom e tudo de ruim que me aconteceu neste ano. Muito bom e muito ruim. Pensei placidamente, ainda cantarolando a música do rádio. Depois agradeci. E só aí as lágrimas vieram, num soluço que não podia ser contido. Vieram no agradecimento. Achei que já tinha chorado tudo, engraçado. Eu que esperava tanto da vida, aprendi neste ano a não esperar mais. E quem não espera mais nada da vida parece que perde a alma. A minha, eu tatuei no pulso. Forcei que ela voltasse pra mim, dolorida como as tatuagens são. Me recuso a não ter alma, me recuso a ser infeliz por um dia que seja. Tatuo, se necessário, pra nunca mais perdê-la.
A minha parcela vaidosa e vã se alegra em ainda não aparentar os 31 anos para a maioria das pessoas. Mas a minha parcela dominante não se importa, não se afeta e não quer saber de nada que não seja eu, a minha saúde, o meu prazer, os meus dias, a minha solidão, a minha história, o meu talento, o meu esforço, o meu eu, o meu ver e o meu tempo. O meu tempo que é diferente do seu e dos outros. O meu tempo passa mais rápido. Não aprendi totalmente – estou quase lá – a ser bastante. Nesse espelho que são as outras pessoas, tudo me lembra eu mesma. A vida não me leva a sério, e o nosso descaso e desesperança é recíproco – meu e da vida. Quem quer nada é livre.

domingo, 16 de agosto de 2015

Fim



Tanta coisa aconteceu nesses meses! Sinto que vários capítulos da minha vida estão se fechando. Outros novos, e excitantes, estão por vir. No fim de julho terminei o mestrado. Terminei de uma forma tão boa, tão pacífica....Essa coisa de escrever tese é sempre cansativa e tensa, mas de alguma forma consegui equilibrar muito bem a minha vida e os meus compromissos nos últimos meses. Talvez seja a maturidade chegando!

Desde dezembro venho desenvolvendo esta ideia da tese. No Brasil, entre as festas de reencontros e convívio com a família, fiz anotações de pontos importantes, coisas que não poderia esquecer de mencionar. Tudo sem muita pressa. Confesso, não trabalhei tanto nessa fase como deveria. Lia com cautela, sublinhava o que achava importante, anotava outros trechos marcantes. E passei assim os primeiros meses curtindo mais os amigos. Não propriamente fazendo, mas pensando na tese. No início de março comecei a escrever. Fiz aquela parte histórica chata, com pesquisas de datas e introduções literárias. Fiz também um esquema com a estrutura de como eu imaginava que seria o percurso das ideias. Esse esquema, imagino eu, foi a coisa mais importante que eu fiz na minha estada no Brasil. Mais do que pesquisas e fotos, porque tudo isso pode ser feito de longe. Andei nas praias, vi o movimento, anotava as ideias em guardanapos e por fim estruturei isso tudo. O tema ajudou, claro! Em uma análise de performance das praias cariocas como espaços abertos, via nos meus passeios o que elas representam para os cariocas e para mim. Sim, a tese foi muito pessoal.

No início de maio interrompi os estudos e me aventurei na África do Sul. Como parte do último período do mestrado, participei de um concurso internacional de planejamento urbano. Que cidade! Que atmosfera! Quanto estilo impresso nas pessoas, nas músicas, na cultura. Foi uma experiência inesquecível passar um mês naquela beleza de lugar. Foi bom pra relaxar e esquecer de tudo. Curtir um ska, um bom vinho e a combinação desses dois. Fechar os olhos já pesados de Tall Horse Shiraz e deixar o reggae entrar.

Voltei pra Alemanha relaxada mas também pronta pra trabalhar. Feliz. E trabalhei, viu? Em média 10 horas por dia. E escrevi a tal tese sobre a praia. Fiz bem, com tempo, dormindo toda noite. Por causa dos meus orientadores, tive de defender a tese antes da turma toda, 10 dias antes. Então peguei o trem para Nürtingen, tantas vezes fiz esse trecho....A banca foi um sucesso. Teve sorte mas teve muito trabalho duro. É uma sensação ótima ter as suas ideias compreendidas, isso pouco acontece comigo. Tentei ainda visitar meu ex estágio em Tübingen, mas os compromissos da Susanna impediram esse encontro. Então curti um pouco Tübingen, minha quarta morada de um total de seis cidades em dois anos. Mudei muito. Foi uma tarde prazerosa. Entrei no trem e prossegui viagem para Aachen. Ali no trem pensei nesses dois anos. Foram sofridos, divertidos e muito, muito introspectivos. Aprendi a ser sozinha nesse tempo. Rodeada de gente, mas sozinha. E foi bom, mudei. Hoje gosto de me bastar, de me virar e de receber as pessoas da minha vida porque eu quero, não porque eu preciso.

Fechei este capítulo do mestrado de uma forma serena. O mestrado que era o meu escudo no país. Ocupava os meus dias e me dava o título de estudante. Agora é só a Giselle na Alemanha, procurando ainda o que fazer.



Este post foi publicado originalmente em 8 de agosto de 2012, no antigo blog. Ele faz parte da série de posts republicados no novo endereço! 

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Vila de São Jorge

Um dos lugares que mais tinha saudades quando estava na Alemanha era a Chapada dos Veadeiros. Nós brasilienses estamos acostumados a reclamar da falta de praias e da seca, mas esquecemos às vezes de agradecer por este presente que temos, tão perto. Eu era assídua visitante da chapada nos meus tempos de faculdade, nada mais comum. Bem calanga do cerrado.

Mas estava há cinco anos sem ir. Cinco!! Então, assim que retornei, tratei de combinar o mais rápido possível uma visita.

Fomos eu e minha irmã. Aproveitamos os últimos dias de baixa temporada e com as férias, pudemos ir fora do fim de semana e pegar uma super tranquilidade na cidade. Escolhemos a Pousada Baguá. Era aquele lugar que a gente sempre quis conhecer, mas não tínhamos meios. Dessa vez resolvemos abrir a mão.

A estrada até a Vila de São Jorge está ótima. A velha guarda deve lembrar que antes a pavimentação só chegava até Alto Paraíso, mas agora isso tudo está resolvido. A pousada é tudo que esperávamos: confortáveis instalações e staff bem treinado e cordial. Ficamos no Bangalô Baguá, o melhor tipo, pois se é pra abrir a mão, façamos o negócio direito! Tinha também a Amora, uma labradora preta fofura que nos acompanhava na nossa ioga matinal.

No primeiro dia, fomos ao Vale da Lua rapidamente. Tínhamos somente algumas horinhas e não queríamos pegar trilhas muito longas.


Renovando energias no Vale da Lua



Reservamos o dia seguinte para irmos ao Parque Nacional, pois teríamos mais tempo para percorrer os 10,5km da trilha dos canyons. Eu, claro, escolho os piores momentos para me acidentar. Estávamos sozinhas no meio do nada, já 3km distantes do acesso do parque, quando eu dou de cara numa árvore. Sim, dei com a testa numa árvore baixa e a pancada foi tão grande que eu caí zonza para trás e lá fiquei por uns bons minutos. Por sorte, logo retomei a energia e nada de mais grave aconteceu. Só trouxe de recordação um galo na cabeça que, tão satisfeito com o novo ninho, resolveu ficar por lá uma semana inteira! Nos rendeu boas risadas esse tombo.

É sempre assim quando estou com a minha irmã: tombos homéricos que serão lembrados em todos os churrascos e aniversários em família. A sister adora essa irmã atrapalhada.

No dia seguinte, já recuperadas das subidas e descidas, fizemos o check out do nosso bangalô lindão e fomos à Cachoeira São Bento. Essa cachoeira é ótima para ser visitada na volta para casa, pois o acesso a pé tem só 300m de distância e fica na volta de São Jorge para Brasília, com uma entrada pela estrada mesmo. Fica também bem perto de Alto Paraíso, para quem tiver hospedado por lá.

Assim terminamos a nossa pocket trip, com muito Legião Urbana tocando no carro, muita terra nos nossos tênis e a energia renovada para os próximos tempos!



domingo, 28 de junho de 2015

De volta ao Brasil

O último mês foi bastante ocupado. Tudo aconteceu muito rápido e aqui estou eu de volta ao Brasil. Os cinco anos na Alemanha foram maravilhosos, porém o meu tempo lá venceu. Foi suficiente e maravilhoso enquanto durou. Foi também uma decisão difícil voltar ao Brasil. Muito mais difícil que a ida. Mas depois de decidido, os afazeres foram rápidos e cá estou eu, de volta em Brasília.

O blog então vai ter um novo caráter. Vou falar muito do Brasil e de Brasília, a minha cidade. Mas continuo escrevendo sobre a Alemanha, claro. Afinal, foram cinco anos de muitas histórias, morei lá, estudei, trabalhei, morei em muitas cidades diferentes. Isso tudo está gravado na minha memória e na pessoa que eu me tornei. Isso não muda, tenho muita experiência para compartilhar! Estando aqui no Brasil, quando eu conto sobre a minha vida na Alemanha, percebo que restou muito assunto ainda não dito aqui no blog. Foi muito tempo lá, gente. Cinco anos! Aprendi muito, amadureci muito, e estou cheia de novas idéias.

Então não se preocupem, os posts sobre a Alemanha continuarão! E lógico, não consigo parar de viajar. Ainda conto as viagens que ando fazendo por aqui, e também a minha readaptação à rotina brasileira. São muitas mudanças. Mas estou feliz por estar de volta!

sábado, 7 de fevereiro de 2015

Ausbildung - parte 1

Adoraria dizer que tive férias maravilhosas em janeiro e, por isso, andei sumida do blog. Mas a verdade é que estava trabalhando muito. Aí me lembrei que nem contei pra vocês direito do meu trabalho.
Então vamos por partes.

Passei algum tempo procurando emprego aqui em Aachen como paisagista, após terminar o mestrado, mas não encontrei nada. Eram raríssimas as vagas que saíam, afinal Aachen não é uma cidade tão grande assim. Quando saía alguma coisa, eu mandava curriculum e depois de um tempo recebia alguma negativa. A verdade é que ter estudado aqui em inglês me atrapalha constantemente. Acho que o meu alemão foi o principal motivo de ter eu não ter conseguido nada no princípio, mas isso eu nunca vou saber.

Depois de viver um tédio tremendo estando desempregada (definitivamente não nasci para ser dona de casa, sou um desastre) resolvi encontrar qualquer coisa que me mantivesse ocupada. Foi uma separação difícil dos meus sonhos profissionais, afinal amo a profissão que escolhi; com a realidade, que era uma só, não arranjava nadinha como paisagista. Doeu um pouco admitir isso pra mim e arranjar forças para ir adiante. Mas estava realmente chato ficar em casa.

Assim, decidi procurar algo no ramo de hotelaria. Uni o meu interesse por viagens e turismo com a minha experiência aqui com o blog, onde conheci turismólogos, gastrônomos e escritores de viagens (que é um sonho que ainda realizarei nesta vida). Mandei curriculum para vagas de trabalho em hotéis, mas surgiu um outro empecilho: aqui, muitos empregos que não exigem uma formação universitária, exigem uma espécie de curso técnico, o chamado Ausbildung.