domingo, 30 de março de 2014

Manifestação nazi

Ontem foi um dia atípico. Doze horas após o meu despertar, estava no meio de uma manifestação entre nazistas e anti-nazistas. E estava do lado errado. Vou contar como tudo aconteceu.

Ainda no café da manhã de um sábado preguiçoso estava parcialmente eufórica, pois naquele dia iria pela primeira vez à ópera. Pensava em como devia ser tudo e relia a sinopse da obra, quando o Matthias volta do cabeleireiro com um enorme cartaz. Pergunto o que é aquilo e ele responde: Hoje tem manifestação dos nazistas lá fora. Oi? Pensei ter sido transportada para alguma outra realidade onde essa sentença dita tão tranquilamente fazia sentido. Depois pensei estar ainda sonolenta. Por fim, pensei que meu alemão estava meio ruim, preciso garibar mais esse meu alemão.

Depois da confusão inicial e mais algumas palavras trocadas, entendi. Os nacionalistas extremistas fariam uma manifestação naquele dia: os Nazis (chamados assim, com todo o simbolismo que este nome traz, pois alguns querem coisas bem semelhantes ao que aconteceu no Holocausto). E numa democracia, até os nazis têm direito de manifestar sejam quais forem as insatisfações insanas que eles tenham. Posso até imaginar quais sejam... eles fariam então a sua manifestação controlada no modo alemão de ser. Tudo previamente acertado com a guarda da cidade, com hora para começar, terminar, percurso que iriam percorrer e por aí vai. O percurso passaria pela porta da minha casa. Fiquei alarmada. Achei por um instante estar exagerando na preocupação, afinal todos pareciam tão tranquilos na rua. Pensei obviamente não ter entendido. Então eles vão manifestar a sua vontade de me varrer (na minha condição de estrangeira, parda e por aí vai) daqui?

 "Wir sind Aachen. Nazis sind es nicht" dizia o cartaz que o Matthias trouxe. Nós somos Aachen, os nazistas não são (com o apoio do governo de Aachen).  Ele recebeu de um grupo anti-nazis que distribuíam o cartaz nas redondezas, por onde passaria a manifestação. Se você for contra o que eles querem, pregue na sua janela e demonstre a sua contrariedade.

Estava na minha janela.


Perto da hora de irmos à ópera, um clima estranho estava pairando. Não eram os dito cujos passando, era uma manifestação contra os manifestantes. Isso mesmo. Centenas de pessoas estavam nas ruas com cartazes semelhantes ao da minha janela, esperando os nazis passarem para uma espécie de confronto democrático. Afinal, aquela não era uma manifestação qualquer. Vi helicópteros sobrevoando.

Eu moro numa cidade pacata, aqui eu nunca vejo helicópteros.


Foi então que surgiu um batalhão de choque na minha janela. Muitos policiais com escudos, sirenes, armas e tudo mais. Fiquei nervosa. Descemos em direção ao teatro eu, o Matthias e a Dani, amiga que havia nos convidado para a ópera. Passamos no meio da confusão, tentamos fugir da multidão, cortamos caminho. Do lado de fora do percurso por onde os nazis passariam, vi muita gente com bandeiras e vi também um palco com uma banda africana tocando ao vivo. Quase me entreguei aos batuques como normalmente faço, mas dessa vez estava vestidinha de ópera, queria chegar logo ao meu destino. Estava meio tensa e só queria sair dali.

Chegamos, finalmente, ao quarteirão do teatro e...lá estava a barricada da tropa de choque! Isso mesmo. Para chegarmos ao teatro, teríamos que atravessar a barreira para o lado inimigo! O teatro estava no centro do percurso dos caras. Meu. Deus. Is this real?

Então eu e a Dani tomamos coragem e fomos falar com os policiais. Queríamos passar, chegar ao teatro. Ele perguntou se tínhamos as entradas, queria vê-las. Dissemos que não, que os tickets estavam reservados na bilheteria. E assim ele nos deixou passar. O caminho estava livre, ninguém passando por lá ainda. Andamos rapidinho e logo chegamos ao teatro, sem problemas. Mas e o medo? Por alguns segundos fiquei do lado de dentro, com essa minha cara de latina, com aquele povão todo do lado oposto com suas bandeiras de liberdade.

Entrei no teatro e tentei me desligar. Consegui. A Ópera Don Carlo é bem linda. Esse dia estranhérrimo teve um final bem agradável, depois conto mais!









2 comentários:

  1. Nossa, Gi! que tenso. Ainda bem que no fim rolaram coisas boas... Se vc passasse no meio da manifestação correia algum risco?

    Ontem, por acaso, encontrei o Filipe na São Salvador. Ele me contou que deve te ver.

    Beijos saudosos!

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    1. Acho que não, Lili. A manifestação foi pacífica e bastante controlada. Mas mesmo assim, era o último lugar que eu gostaria de estar - do lado de dentro - quando eles passassem!

      Bjos Lili!

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