quinta-feira, 3 de julho de 2014

Bruges sonho


Ao visitar um amigo belga em Leuven, em 2007, acabei conhecendo Bruges. Eu mesma não havia planejado. Iria passar poucos dias no país e, sem muitos planos ou grana, acabei ficando solta. Meu amigo, no entanto, insistia diariamente para que eu fosse lá. Você não pode ir embora da Bélgica sem conhecer Bruges, ele disse. Depois de algum descaso nosso, talvez por total ignorância da beleza da cidade, ele decidiu nos levar de carro de uma vez. Praticamente nos forçou. E assim eu conheci um dos lugares mais fofos da Europa. Muitos anos depois, quando a nossa lembrança fica um pouco embaçada e podemos descrever lugares incríveis em uma ou duas frases, dizia que Bruges era lindinha, tipo uma cidade de bonecas, assim.



Neste ano, quando incluí Bruges no roteiro da família, percebi uma certa preguicinha da parte deles. Ah, vamos só até Bruxelas, filha, Bruges fica mais longe da sua casa. Insisti. Disse que como eu fazia o roteiro, eu ordenava que fôssemos também a Bruges. E assim me veio a insistência como a do meu amigo há tempos atrás, quase que como incorporada dele para mim. Acho que quando as pessoas falam que você deve conhecer tal lugar de qualquer maneira, elas são tomadas por um espírito generoso. Devem te imaginar naquele ambiente, tirando fotos, tomando um vinho. Você maravilhado com aquela experiência que ele, de alguma forma torta e singela, também te proporcionou, ao indicar um local.

As coisas não mudaram por lá. A cidade, assim como eu descrevia, parece um cenário: ou aquelas pecinhas de casas em madeira que eu empilhava quando criança. Como se uma organização meio Disney-histórico-medieval tivesse o poder de entrar na sua mente e te questionar: Como você imaginaria o lugar mais plácido do mundo? Você certamente descreveria Bruges, mesmo se não a conhecesse. Então essa organização fictícia construiria algo assim, direto dos seus sonhos: uma cidade pequena, modesta, não propriamente rica de ouros e tapetes, porém rica em todos os seus componentes de detalhes; tijolos perfeitamente avermelhados, heras que sobem por eles, cafés de letreiros singelos, vidros coloridos, flores nas janelas, esquadrias. Mais que rica. Ouso dizer perfeita. Coisa que um cenógrafo talvez imaginaria, mas nunca um organismo vivo no qual  moradores baderneiros, bosta de cavalo ou buzinas estridentes pudessem perturbar. Um lago com cisnes, você iria fantasiar. Adicione canais. Em todas as partes. E os cisnes são  imensos e brancos, silenciosos. Os waffles e doces coloridos enfeitam as vitrines e deixam um cheiro de açúcar a metros de distância. Quanto mais estreitas as ruas, mais charmosas elas são, seria a sua conclusão.
Até os vidros são coloridos.



Ouso pensar nas plantas que o meu cenário bucólico teria: com certeza um salgueiro quase tocaria a água no meu lago imaginário. Pois as de lá superam até meu gosto pessoal por heras e árvores centenárias. As árvores de Bruges parecem dançar todas um mesmo ritmo, numa mesma coreografia que o vento ordena. Tudo, absolutamente tudo está em ordem em Bruges.

As árvores da Béguinage são inclinadas ordenadamente.
Paisagem sonho.


Se alguém mora lá? Sem dúvida. Mas eles tiveram a delicadeza de deixar guirlandas de flores em suas portas e vasos em suas janelas. Fui tomada por uma vontade incontrolável de fotografar tudo que via, sem saber o que era original, vindo de um controle de patrimônio exemplar da UNESCO; ou "plantado" depois, justamente para nos dar essa noção de sonho. Hoje, as fotos são tão semelhantes e belas que não despertam meu interesse imediato, confesso. É isso. Se a cidade peca, peca pelo excesso de beleza. As minhas cidades favoritas têm em comum um grafite aqui, outro acolá. Ou alguma ruína mal cuidada. Tem definitivamente barulho.

Mas nada parece distorcer a imagem daquela cidade. Por isso, suspiro brevemente quando escrevo sobre ela, quase que acordando de um sono bem dormido.

Nenhum comentário:

Postar um comentário