segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Sem pressa

Uma das coisas que mais gosto na gastronomia é a relação da comida com o tempo. Se alguns pratos são saborosos crus, outros exigem um período demorado de preparo. Se descascar, picar e juntar tudo de uma vez, não fica bom. Isso me fascina: o tempo em que os ingredientes estão lá, encorpando em um cozido, molho, sopa. Não por acaso criadores do movimento Slow Food, os italianos prezam o longo tempo de preparo de alguns de seus pratos. O molho de tomate cozinha dias na panela. O próprio tomate deve estar maduríssimo para virar molho. O Tortellini é enrolado um a um, vocês sabem o que é uma arte dessas nos dias corridos de hoje? Aprendi a fazer massa de lasanha tradicional com vinte anos, já apaixonada por comida, mas sem saber muita coisa. Meu professor de italiano fazia almoços frequentes em sua casa e enquanto todos ficavam na sala conversando, eu ficava junto com o velho Paolo, abrindo a massa e tomando a nossa tacinha de vinho. Ele me contava as histórias de quando era criança na Itália e ajudava a mãe a enrolar os Tortellinis na cantina em que ela trabalhava. Eu gosto também desse saudosismo da comida italiana. E da paixão. Meus amigos sabem, a lasanha na casa da Gi se tornou uma tradição. A primeira receita de sucesso escrita no meu fichário moderninho de receitas. Não aprendi o idioma direito, mas nunca esqueci as lições de culinária.

Aqui na Alemanha eu sou cliente frequente do Vapiano, uma rede alemã de comida italiana. Não deve prestar, pensei no início. Errei. Vou sempre, comemoro datas importantes lá e sempre me fascino com as oliveiras da entrada. Gosto do respeito que os donos dessa rede tiveram com as tradições. Demore o tempo que demorar, sua comida será deliciosa, eles parecem pensar.

Hoje, depois de centenas de vezes comendo o mesmo spaghetti de espelta ao molho pesto rosso, resolvi go wild, esquecer a dieta e mudar o cardápio. Pedi um carbonara. Outra coisa que eu gosto do Vapiano é a cozinha espetáculo que eles promovem. Assim como em algumas redes brasileiras, os chefs cozinham na sua frente. Mas ao contrário do que vemos por aí, no Vapi eles não têm pressa. Nada de pressão na hora de escolher quais temperos, qual óleo você quer usar. Eu realmente me inspiro vendo o chef fazer o meu prato. Hoje fiquei maravilhada com o carbonara. Que execução! O bacon milimetricamente cortado junto com a cebola igualmente bem preparada ficavam com aquele tom dourado e depois cor de bronze. Sem pressa. Pedi alho, adoro alho. Enquanto isso, o chef separava já a gema, deixava ali do ladinho. Molho feito na hora, ao vivo, uma aula! Depois de adicionar o creme de leite fresco e temperos, o prato foi esquecido por mais um tempão. E eu lá, vendo aquela calma que só os sábios compartilham. Depois a gema foi incorporada quase no fim, como deve ser. O Grana Padano nem de menos e nem demais - o que é bastante comum por aqui. Salsinha fresca. Meu prato estava divino, o melhor que já comi lá. Sem pressa. Tem gente que acha que fazer o cliente esperar na frente do balcão enquanto se cozinha é quase como pedir um fast food. Mas acho que quem não aprecia a sua própria comida sendo feita como deve ser, com talento, não tem coração. Ou paixão.

Comida que inspira


3 comentários:

  1. que delícia, Gi! Fiquei com vontade! =*

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  2. É bom demais, Lili! Adoro comida italiana :))

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  3. Hummm, devia estar uma delícia mesmo..

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