segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Ao amor

Quando embarquei para a Alemanha, em 2010, vim chorando durante todo o voo. As pessoas decerto pensaram que eu tinha perdido alguém e ia para um enterro, ou que ia obrigada. Ao contrário, ia por livre vontade para o destino final. Essa palavra, destino, era o que eu também acreditava. Havia desejado por tanto tempo. Muitos pensam que todos os brasileiros que decidem morar fora vão atrás de uma vida melhor. Eu não. Eu não poderia ter uma vida melhor que a que eu tinha no Brasil. E por este motivo chorei no salão de embarque. Estava arriscando all in todas as minhas fichas que acumulei por 25 anos. Estava cercada de amor em Brasília, de amigos e de beleza. Levava sempre a vida de uma forma leve, quase irresponsável de tão leve, sem pensar muito no futuro e mudando de idéia a cada dois anos sobre quem eu era ou quem gostaria de ser. Naquele momento tive medo de endurecer com a vida. Tive medo do sofrer longe da minha redoma de amor, de conhecer gente ruim, de ser esquecida. Tive muito medo de ser esquecida pelos que amava, ou de ser mal interpretada por eles, afinal não estava fugindo. Não estava rejeitando a minha felicidade nem a companhia deles. Nem sabia ao certo o porquê de querer mudar. Ainda não sei.

Às vezes antes de dormir escuto as batidas do meu coração e me aflijo. Me aflijo também quando penso na morte. Não gosto de lembrar que sou corpo, vivo todos os meus dias pensando que sou alma; e as batidas do meu coração me lembram das minhas engrenagens em compasso, me irrita um pouco. Mas não tenho medo da morte, tenho pena. No meu pensamento infantil eu acumulei pessoas e acontecimentos naqueles 25 anos e me distanciar de tudo que me fazia tão bem parecia muito estúpido. Sou mesmo feita de amor e medo.

No meu aniversário de 30 anos constatei que o amor não se dissolveu. Talvez tenha virado lembrança, mas não me chateio com isso. A Giselle presente não está mais de papo no bar em Brasília ou fazendo piada entre as aulas da UnB. Ou com seu mau humor característico tentando ouvir a novela enquanto a família conversa animada. Estou longe. Estou crescendo, mudando, envelhecendo de longe. Mas pra quem gosta de se imaginar no campo imaterial das coisas, acho que é bonito também virar lembrança. Me alegrei enormemente ao ser lembrada com carinho no dia do meu aniversário. Não endureci, ainda. Nem achei respostas, ainda. Se estivesse eu hoje esperando para embarcar para a minha nova vida na Alemanha, talvez choraria ainda mais, conhecendo o desconhecido. Mudaria algumas coisas, não digo que não. Mas encontrei uma outra felicidade nem melhor nem maior que a que vivia no Brasil, diferente. Aos que me cercaram de carinho no dia do meu aniversário, eu sossego vocês: eu sigo amando e acreditando em coisas indissolúveis como o amor, a amizade e a alma. E obrigada por tudo.

8 comentários:

  1. Que lindo, Gi! Me identifiquei contigo... Se não chorei no voo, quando me mudei pro Rio, chorei muito naquela noite de 31 de Dezembro que furei com você (você lembra?) e em muitas outras.

    Beijos obrigada por compartilhar! Vc tá sempre com a gente na nossa turminha marota do coração. =)

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    1. A gente viveu muita coisa parecida Lili, por isso trocamos sempre umas idéias enriquecedoras. beijo, saudades muitas!

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  2. Passei batida nesse texto, veja só, que mancada. Logo esse, talvez o mais belo, junto com o do passeio ao castelo mágico e coberto de matagal na Holanda. Gi, "uma outra felicidade, nem melhor nem maior", é exatamente o que sinto quando lembro de você morando aí. Eu chorei tanto na véspera do seu casamento, porque só naquela noite vi que a sua escolha estava consumada, mas também chorei de rir tantas vezes nos nossos passeios malucos europeus... é o tipo da coisa que não consigo explicar aos outros. Então não explico. É uma felicidade complexa, diferente e árida, mas tão, tão bela. Parabéns novamente, bonequinha. Pelo aniversário e pela coragem de sempre! Beijão da mana!

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    1. Ô minha irmã, que linda mensagem! Não sabia do seu choro na véspera do casório...obrigada pelos parabéns! Eu acho mesmo que existem mil formas de felicidade. Eu, se tivesse ficado em Brasília, também seria feliz no meu emprego, com todos os amigos e com a minha vida construída. Mas você sabe, eu sempre escolhi os caminhos mais difíceis (como quando passava batom com o antebraço apoiado na cabeça, ao contrário). O importante de tudo isso é encontrar uma delas, alguma felicidade, e seguir :) Saudades, irmã!

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  3. Oi Gi!

    Se emocionar faz parte quando se fala em amor, não é mesmo?
    A gente tem que encontrar a felicidade independente das fronteiras <3

    Desejamos (mesmo que tarde) um feliz aniversário!
    Que neste novo ciclo de vida você tenha ainda mais forças para enfrentar essa nada mole vida. Estamos aqui torcendo pelas suas vitórias viu?

    Beijão!
    Carol e Nati

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    1. Obrigada pelos parabéns, Carus! A reflexão é a minha parte preferida dos aniversários! Também desejo que vocês sejam muito felizes no caminho que escolherem! bjão :)

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  4. Oi, Gi! Estou relendo isso hoje e como fiquei emocionada. Que bom que a vida colocou pessoas especiais como você na minha vida. :) Beijos/Felicidades.

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