quinta-feira, 29 de outubro de 2015

31 anos


Não só quem nos odeia ou nos inveja
Nos limita e oprime; quem nos ama
Não menos nos limita.
Que os deuses me concedam que, despido

De afetos, tenha a fria liberdade
Dos píncaros sem nada.
Quem quer pouco, tem tudo; quem quer nada
É livre; quem não tem, e não deseja,

            Homem, é igual aos deuses.” (Ricardo Reis)

Voltando de carro do trabalho no dia em que completei 31 anos, eu pensei em tudo de bom e tudo de ruim que me aconteceu neste ano. Muito bom e muito ruim. Pensei placidamente, ainda cantarolando a música do rádio. Depois agradeci. E só aí as lágrimas vieram, num soluço que não podia ser contido. Vieram no agradecimento. Achei que já tinha chorado tudo, engraçado. Eu que esperava tanto da vida, aprendi neste ano a não esperar mais. E quem não espera mais nada da vida parece que perde a alma. A minha, eu tatuei no pulso. Forcei que ela voltasse pra mim, dolorida como as tatuagens são. Me recuso a não ter alma, me recuso a ser infeliz por um dia que seja. Tatuo, se necessário, pra nunca mais perdê-la.
A minha parcela vaidosa e vã se alegra em ainda não aparentar os 31 anos para a maioria das pessoas. Mas a minha parcela dominante não se importa, não se afeta e não quer saber de nada que não seja eu, a minha saúde, o meu prazer, os meus dias, a minha solidão, a minha história, o meu talento, o meu esforço, o meu eu, o meu ver e o meu tempo. O meu tempo que é diferente do seu e dos outros. O meu tempo passa mais rápido. Não aprendi totalmente – estou quase lá – a ser bastante. Nesse espelho que são as outras pessoas, tudo me lembra eu mesma. A vida não me leva a sério, e o nosso descaso e desesperança é recíproco – meu e da vida. Quem quer nada é livre.

Um comentário:

  1. Gi, esse ano tb tem sido cheio de coisa boa e outras nem tanto pra mim. Envelhecer as vezes é tenso, mas estou tentando não ser resistente (não exatamente não querer nada) mesmo na iminência dos 30 que deveriam ser tanta coisa? Beijo e desejo q vc seja feliz.

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